sábado, 30 de novembro de 2013

Características dos circuitos de comunicação


Quando falamos em comunicação estamos a envolver mais do que uma pessoa e, muitas vezes, mais do que um grupo. Entre as pessoas ou entre os grupos estabelecem-se estruturas que permitem a comunicação, que correspondem a arranjos dos canais, já que "numa organização é impossível que cada indivíduo ou cada unidade de trabalho possa comunicar com todos os outros" (Petit, 1998: 54). Segundo o mesmo autor, isto acontece essencialmente pela limitação dos suportes de comunicação, pela limitação das possibilidades cognitivas e operatórias do indivíduo e pelo imperativo organizacional, segundo o qual as informações pertinentes devem passar pelos centros de decisão. Ora, quando pretendemos melhorar a comunicação numa organização, segundo Gondrand (1983:70), “ont doit, logiquement, commencer par une analyse du foncionement des réseaux de comunication”, e para o mesmo autor, devemos comparar o que se passa na realidade com o que a direcção pretenderia. A forma como a informação circula e o tipo de estrutura escolhida podem relacionar-se positivamente ou negativamente com a eficácia da comunicação. Ferreira (2001) aponta quatro tipos de redes de comunicação, como sendo os principais: o círculo, a roda, a cadeia e o todos-com-todos, enquanto que Teixeira (1998) aponta ainda a rede em Y.
No quadro que se segue apresentam-se os vários tipos de redes de comunicação bem como a sua descrição e, comparativamente, algumas características.

Tabela: Características das redes de comunicação. (Adaptado a partir de Teixeira, 1998).


Descrição
Veloci-dade
Rigor
Satisfação dos membros
Emer-gência de liderança
Centra-lização
Em roda.
Os membros do grupo comunicam apenas e sempre através de um único membro, o qual ocupa portanto uma posição central.
Elevada

Bom

Reduzida

Sim

Sim

Em Y.
A comunicação percorre, nos dois sentidos, os diversos níveis da hierarquia sem possibilidades de comunicação horizontal.
Lenta

Razo-ável

Reduzida

Sim

Sim

Em cadeia.
Apenas permite a cada membro comunicar com o que o antecede ou precede.
Lenta

Razo-ável
Reduzida

Sim

Mode-rada
Em círculo.
É uma cadeia em que o último membro comunica com o primeiro fechando-se o círculo.
Média

Bom

Elevada

Não

Não

Em interli-gação total.
Todo e qualquer membro do grupo pode comunicar com qualquer outro membro do mesmo grupo.
Lenta

Redu-zido

Elevada

Não

Não





















Analisando cada tipo de rede podemos concluir que no caso da roda, onde a informação passa sempre por um elemento que a redistribui, a comunicação ocorre “com um elevado grau de rapidez e rigor” (Teixeira, 1998: 165) mas “o nível de satisfação que desenvolve nos membros do grupo é reduzido” (idem: 165). Neste tipo de rede é clara a importância do elemento que redistribui a informação e é característica de sistemas com “estruturas centralizadas em que a liderança se caracteriza por um elevado grau de autocracia” (Teixeira, 1998:). A rede em Y tem problemas relacionados com a comunicação horizontal e é uma rede muito hierarquizada. No caso da rede de comunicação em cadeia cada elemento só pode comunicar com o que o antecede ou precede. É um tipo de rede que se caracteriza pela lentidão e pela emergência da liderança. Se este tipo de rede se fechar temos uma rede em círculo, neste caso é melhorada a velocidade, o rigor e a satisfação (Teixeira, 1998) no entanto pode, durante a circulação da mensagem, ocorrer alteração da mesma derivada de "factores psicológicos, tais como: a recepção viciada, o esquecimento parcial, a própria interpretação da mensagem ou a sua distorção, em função daquilo que se desejaria que fosse o conteúdo efectivo" (Rosa, 1994: 171). O último tipo de rede a que se refere Teixeira (1998: 165-166) é “em interligação total”. Nesta situação todos os elementos comunicam com todos, o que leva a uma diminuição da velocidade e rigor, assim como à não existência de liderança e centralização. Apesar destas características, a satisfação é elevada. Já Rosa (1994) refere que, quando a interligação total ocorre entre elementos altamente qualificados, consegue-se a máxima eficiência.
Numa organização, ou num grupo, podem coexistir mais do que um tipo de rede podendo assim beneficiar das características que cada uma delas apresenta.
Ferreira (2001: 367) faz também uma apreciação à eficiência de cada uma destas redes, referindo que há estudos que revelam “que em tarefas simples, as configurações mais centralizadas, como a roda e a cadeia, aumentam a eficiência do grupo”, no que se refere às tarefas complexas, “as configurações mais descentralizadas, como o círculo e todos-com-todos [correspondente à interligação total de Teixeira] conduziam a soluções de maior qualidade”. O mesmo autor assinala o treino como factor determinante para as diferenças já que, segundo ele, “ao fim de algum tempo de treino, nenhuma das redes de comunicação se revela claramente superior às outras na influência do grupo” e aponta como factores mais decisivos do desempenho do mesmo, o tamanho e o tipo de tarefa. Já Leavitt (1951) verificou que a roda é mais eficiente para o cumprimento da tarefa. Segundo Katz (1987:260) trabalhos posteriores de Guetskow e Simon relacionaram essa eficiência com o tempo de aprendizagem, isto é, tal como já referimos, o factor determinante pode ser o treino. O mesmo autor refere que Guetzkow e Dill, das experiências que fizeram, concluíram que os grupos pareciam preferir sistemas com um mínimo de ligações e dentro dos grupos eram geradas pressões para que ocorresse a redução do número dessas ligações. Os grupos conseguiam mais eficiência no cumprimento da tarefa quando o sistema de comunicação era simplificado, no que diz respeito ao número de ligações, a " rapidez e a qualidade de execução, como o moral dos indivíduos, ganham sempre que os centros de decisões se aproximam das fontes de informação" (Petit, 1998: 57). Para Gondrand (1983 : 70) também é “évident […] qu’un nombre excessif de relais multiplie les risques d’une information tronquée, altérée ou modifiée, en fonction des filtres, auxquels sont soumis les messages, tant de la part de l'émetteur que du récepteur, des inconvénients dus au codage et ou décodage des messages, des bruits qui altèrent la ligne de communication"   . Por outro lado devemos atender ao que Katz (1987:258) chama “laço”, que é “a quantidade de espaço organizacional coberto por determinada informação”. Se o laço for muito grande, ele poderá envolver pessoas irrelevantes e, se for demasiado pequeno, pode omitir informantes capitais (idem). O laço, no primeiro caso, leva a uma sobre-informação, já que o laço envolve “todos os níveis da organização no lado da transmissão” e, por outro lado, “envolve apenas os dois escalões mais altos no lado do recebimento” (Katz, 1987: 261).
Extrato de :
A COMUNICAÇÃO DOCENTE NOS AGRUPAMENTOS DE VILA NOVA DE GAIA
Autor : Henrique Manuel Salgado Almeida
Dissertação apresentada à Universidade Católica Portuguesa para obtenção do grau de mestre em Ciências da Educação
 - Especialização em  ­­­­­­­­­­­­Administração e Organização Escolar -
2005

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